Cinco anos atrás eu nem imaginava que ia jogar campeonato de vôlei de praia. Na verdade, eu nem gostava tanto de vôlei. O esporte que eu jogava de verdade era o futebol society com os colegas do trabalho, toda quinta à noite, até o dia em que o grupo foi se desfazendo: um mudou de cidade, outro teve filho, o campo fechou para reforma. Em poucos meses, eu estava sem time e sem nenhum esporte na rotina.
Quem me tirou dessa fase foi a minha esposa, na época ainda namorada. Ela jogava vôlei de quadra havia mais de dez anos e, em 2021, resolveu migrar para a areia. Precisava de companhia para os treinos de fim de semana e me chamou. Não foi uma escolha minha, foi um convite dela, e olhando para trás hoje faz todo o sentido.
O começo foi bem informal
Comecei do jeito mais simples possível. Nada de aula, nada de treino planejado, nada de regra levada a sério. Era pelada mesmo, num grupo de nível bem iniciante, todo mundo aprendendo junto, e o clima era só de diversão.
Se você está pensando em começar e acha que precisa de estrutura, equipamento caro ou nível técnico antes de jogar a primeira bola, saiba que não precisa. Eu não tinha nada disso. No primeiro mês, meu “equipamento” era um short velho de futebol e uma garrafa de água. Hoje eu sei um pouco mais sobre o que vale a pena ter, e juntei isso no texto sobre o equipamento que eu realmente uso, mas no começo nada disso fez falta.
O primeiro dia na areia
Não lembro de um primeiro dia espetacular. Foi bem sem graça, na real. Eu não sabia sacar direito, errava toda manchete e ficava perdido na quadra, sem entender onde deveria estar. A diferença para o futebol era enorme: lá eu sabia me posicionar sem pensar; na areia, eu era um iniciante completo.
Ninguém no grupo sabia muito também, então não tinha com quem me comparar nem motivo para sentir vergonha. Era todo mundo aprendendo junto, e isso tirou a pressão de precisar ser bom logo de cara.
Esse detalhe importa mais do que parece. Se o meu primeiro contato com o esporte tivesse sido num grupo avançado, talvez eu tivesse desistido antes de pegar gosto pelo jogo. Comecei num ambiente em que errar era permitido, e foi isso que me fez voltar toda semana, mesmo sem evoluir tecnicamente por um bom tempo.
O que o futebol me ajudou (e me atrapalhou) no vôlei
Quem vem de outro esporte chega com algumas vantagens e alguns vícios. No meu caso, ficou mais ou menos assim:
- Ajudou: leitura de jogo e noção de espaço. Eu já estava acostumado a acompanhar a bola e a prever para onde o adversário ia jogar.
- Ajudou: o hábito de treinar em grupo, com horário fixo. Trocar a quinta do futebol pelo sábado da areia foi natural.
- Atrapalhou: o reflexo de usar os pés. Nas primeiras semanas, bola baixa era sinônimo de chute, o que não ajuda nada no vôlei. Curiosamente, anos depois isso virou vantagem quando comecei no futevôlei.
- Atrapalhou: a mania de resolver tudo sozinho. No futebol, dá para driblar e decidir a jogada. No vôlei de praia em dupla, você depende do parceiro em todo ponto.
Esse último ponto demorou para cair a ficha. Só quando comecei a jogar com a minha esposa como dupla fixa é que entendi como a comunicação pesa. Contei essa parte no texto sobre jogar vôlei em dupla com quem você é casado.
De pelada a campeonato
Hoje o cenário é bem diferente. Treino em nível intermediário e disputo campeonatos amadores aqui em Belo Horizonte. Entre o começo descontraído e o presente teve muito caminho, e é justamente esse caminho que eu quero contar aqui, porque quase ninguém fala da parte de baixo dessa curva.
Vale marcar uma coisa desse começo, porque ela é importante para o resto da série: no início eu só queria jogar e me divertir, sem nenhuma cobrança de melhorar. A vontade de evoluir, treinar, corrigir técnica e levar mais a sério veio bem depois, e não no primeiro dia. É só a partir desse momento que outras questões, como altura, aula formal e o famoso platô, passam a fazer sentido.
Uma linha do tempo resumida, para você se situar na série:
- Ano 1: pelada de sábado, só diversão, zero técnica.
- Anos 2 e 3: jogando toda semana, mas sem evoluir. Contei essa fase em os 2 anos que joguei sem evoluir nada.
- Ano 3: primeira aula de verdade e primeiros ajustes de fundamento.
- Anos 4 e 5: dupla fixa com a minha esposa, primeiros campeonatos amadores e, nos fins de semana, o futevôlei.
Por que estou documentando isso
A ideia deste diário não é ensinar vôlei de cima para baixo, como se eu fosse referência técnica. Não dou aula nem treino ninguém. A ideia é mostrar o processo real, incluindo a parte chata: o tempo sem evoluir, os erros repetidos e as partidas perdidas, para quem está começando entender como é de verdade.
Não é uma jornada de virar bom em três meses. Se for para ajudar, prefiro que seja com informação honesta, e não com promessa vazia. Quando o assunto é regra ou fundamento, eu explico o que aprendi e mostro como aquilo aparece no jogo, mas sempre como alguém que ainda está aprendendo.
O que eu diria para quem está começando hoje
Se eu pudesse conversar com o Leonardo de cinco anos atrás, no primeiro sábado na areia, diria três coisas:
- Procure um grupo do seu nível. Errar junto com gente que também erra deixa o começo muito mais leve.
- Aprenda as regras básicas cedo. Eu passei meses sem entender por que certos toques eram falta. As regras do vôlei de praia explicadas de forma simples teriam me poupado muita discussão na quadra.
- Não tenha pressa de evoluir. O gosto pelo jogo vem antes da técnica. Se a diversão acabar, o treino também acaba.
Perguntas frequentes
Dá para começar no vôlei de praia sem nunca ter jogado vôlei?
Dá. Eu comecei assim, vindo do futebol. O mais importante é achar um grupo de iniciantes, em que errar faz parte.
Quanto tempo leva para jogar um campeonato amador?
Depende da frequência de treino. No meu caso, foram cerca de três anos até eu me sentir pronto, mas muita gente joga o primeiro torneio iniciante bem antes disso.
Quem vem do futebol tem vantagem no vôlei de praia?
Tem na leitura de jogo e na noção de espaço. A desvantagem é o reflexo de usar os pés e o costume de resolver a jogada sozinho.
Preciso de equipamento caro para começar?
Não. Roupa leve, água e protetor para o sol resolvem os primeiros meses. Bola boa e óculos podem vir depois.
Nos próximos posts desta série eu conto como foi passar mais de dois anos sem evoluir, o que me fez procurar uma aula de verdade e como lidei com a questão da altura no vôlei. Se você está no começo, ou pensando em começar, acompanhe comigo.
